O anjo e a igrejinha
Glorinha acordava todos os dias às cinco horas da manhã. Suas filhas falavam que a mãe levantava com as galinhas. Ela não dava atenção, sabia que precisava cuidar de seus afazeres domésticos logo cedo para depois correr para o ponto de ônibus e começar novamente sua labuta.
Saía de casa e deixava suas duas filhas, Clarinha, dez anos, e Joana, cinco, sozinhas. Mas com a inauguração da nova igreja do bairro, já não mais se preocupava, pois o pastor, um homem de fé, certamente zelaria por suas filhas.
Todos os dias as meninas, após voltarem da escola, almoçavam e corriam para a igrejinha para brincar com as amiguinhas e conhecer mais a palavra de Deus. Adoravam as histórias dos grandes heróis, das grandes chuvas e da arca cheia de animais indefesos e sempre se imaginavam como parte das leituras, ainda mais agora que o pastor falava com os anjos! Na verdade, para elas, ele era um guerreiro guardião, sempre disposto a defendê-las, um pai, já que não tinham um.
Num dia chuvoso, somente elas foram para a igrejinha brincar, e assim fizeram boa parte da tarde, tanto que Joana adormeceu ali mesmo, no chão, próximo ao altar. Clarinha continuou a desenhar os cordeirinhos, as uvas e os personagens da história que o pastor havia contado tão logo chegaram lá. Em meios às suas fantasias, desenhou um arcanjo com uma criança no colo, esta muito parecida consigo, e, ao fundo, fez uma linda casa com um jardim florido. Quando de repente, por um passe de mágica, o arcanjo saiu do papel e se aproximou dela com flores! Disse-lhe, triste, que estava fraco, e que precisava de carinho para poder ficar forte, pois apenas oração já não tinha mais o mesmo efeito. Clarinha se assustou, mas depois se acalmou. Aquele moço de feições suaves não poderia machucá-la, era um anjo, o seu anjo. Abraçou-o e acariciou-lhe o rosto, e, tomada pela mão, deitou-se no chão ao lado dele, sorriu e adormeceu. Acordou ao ouvir o pastor chamando! Constatou, então, que ela havia sonhado e que já era hora de ir para casa junto com sua irmã, pois a mamãe logo chegaria.
E assim se foi, irmã segurando de um lado das mãos, e na outra, flores, flores do seu anjo...